A Cooperativa Amazonbai, formada por produtores extrativistas de açaí do Amapá, fechou parceria com a segunda maior rede de distribuição de alimentos da China para fornecer 15 mil toneladas do fruto até 2031. É um dos maiores contratos de exportação de açaí já assinados na região amazônica. Enquanto isso, o Amazonas — segundo maior produtor do país, com 1,3 milhão de toneladas anuais — continua tropeçando em gargalos históricos: acesso à água tratada nas comunidades produtoras, energia elétrica para conservação da polpa e logística de escoamento fluvial.
O que o Amapá acertou
O acordo assinado na Sial China, maior feira de alimentos da Ásia, garante a comercialização de toda a produção da Amazonbai até 2031 — o que significa previsibilidade de receita para centenas de famílias extrativistas cooperadas e estabilidade de preço no mercado interno. O contrato foi fechado depois que os Estados Unidos retiraram, em novembro de 2025, a sobretaxa de 40% que restringia a competitividade do açaí brasileiro no mercado americano.
A cadeia produtiva do açaí no Brasil movimenta hoje mais de US$ 1 bilhão anuais em exportações, lideradas pelo Pará (68,1% da produção nacional) seguido pelo Amazonas.
O que o Amazonas ainda não resolveu
Apesar do volume produtivo — 1,3 milhão de toneladas em 2024, envolvendo 17,5 mil agricultores familiares e extrativistas cadastrados no IDAM —, o AM ainda não conseguiu articular um contrato de exportação continuada com magnitude equivalente ao amapaense. Três gargalos crônicos explicam o descompasso:
- ▸Acesso a água tratada em comunidades produtoras — condição sanitária mínima para certificação internacional
- ▸Energia elétrica estável para refrigeração pós-colheita — janela crítica de conservação da polpa é de horas
- ▸Logística fluvial dependente de balsa e travessia demorada até Manaus para embarque
Codajás, capital estadual do açaí, com Selo de Indicação Geográfica e produção reconhecida (mais de 28 toneladas somando cultivo e extrativismo em 2024, beneficiando 2.450 produtores), sente o mesmo estrangulamento.
A base institucional que existe
O reconhecimento do açaí como fruta nacional pela Lei nº 15.330/2026, sancionada em janeiro, criou moldura legal contra a biopirataria e ampliou proteção jurídica ao produto — passo importante, mas simbólico. A tradução em contratos comerciais concretos depende de infraestrutura e organização em cooperativas fortes.
O IDAM (Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas) presta assistência técnica direta a mais de 17,5 mil produtores da cadeia. A SEPROR articula política estadual. A base institucional existe — falta destravar infraestrutura e escala organizacional das cooperativas.
Janela aberta
O mercado internacional continua puxando — China absorvendo produção amapaense é sinal, não isolado, de que a demanda existe. Se o Amazonas conseguir resolver a tríade água-energia-escoamento em polos como Codajás, Anori e Coari, o Estado tem escala pra disputar contratos internacionais no mesmo patamar. É questão de organização produtiva e política pública, não de mercado.
Se você é produtor de açaí no Amazonas, considere: (1) associar-se a cooperativa formal — sozinho é impossível certificar pra exportação; (2) buscar apoio do IDAM na regularização da cadeia produtiva (DAP/CAF + CAR); (3) monitorar editais SEPROR/FAEA de acesso a infraestrutura. Se é investidor ou parceiro potencial: o gargalo do Amazonas é infraestrutura de pós-colheita, não produção — quem resolver isso captura a diferença.
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