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Política

Sete pautas rurais que nenhum candidato colocou no programa

Do Marco Temporal ao Bloco FZA-M-59: inventário de sete pautas estruturais do agro amazonense sobre as quais nenhum dos nove candidatos majoritários se manifestou publicamente até 13/08/2026.

RA
Redação Agrovia
Editorial
13 de agosto de 2026 · 11 min de leitura
Plenário da Câmara dos Deputados · nenhum dos nove candidatos majoritários AM 2026 se manifestou sobre sete pautas estruturais do agro amazonense
Plenário da Câmara dos Deputados · nenhum dos nove candidatos majoritários AM 2026 se manifestou sobre sete pautas estruturais do agro amazonense · Especial · Edição de estreia Agrovia · Política · Foto: José Cruz / Agência Brasil (Wikimedia Commons · CC BY 3.0 BR)

Nove candidaturas majoritárias disputam a fatia amazonense do poder federal e estadual em outubro. Nas convenções, plataformas anunciadas e declarações rastreadas entre abril e agosto de 2026 em seis portais amazonenses, sete pautas estruturais do agro amazonense não foram tocadas por ninguém — do Marco Temporal julgado no STF ao Bloco FZA-M-59 na Foz do Amazonas, do IDAM sem plano detalhado às cooperativas extrativistas fora de plataforma. A ausência não é acidental.

O Agrovia · Política rastreou entre abril e agosto de 2026 as convenções, plataformas oficiais e declarações públicas dos nove candidatos majoritários do Amazonas — cinco ao Governo e quatro ao Senado — em seis portais amazonenses: Amazonas Atual, A Crítica, Revista Cenarium, D24AM, Portal do Holanda e BNC Amazonas. Sete pautas estruturais da economia rural e territorial amazonense não foram tocadas por nenhuma das nove candidaturas — nem pelo governo em exercício, nem pela oposição institucional, nem pela esquerda socialista, nem pelo bolsonarismo. O que segue é o inventário desses silêncios, com o dado factual duro que cada um encobre.

1 · Marco Temporal · a tese que atinge 62 terras indígenas do Amazonas

O Amazonas concentra o maior número de terras indígenas homologadas do país — 62 TIs em 2025, segundo a Funai, incluindo Waimiri-Atroari, Sateré-Mawé, Mura, Yanomami, Kokama e Tikuna. A Lei 14.701/2023 (Marco Temporal) segue sob julgamento no STF e é o instrumento que redefine o direito originário à posse tradicional. Federação de organizações indígenas amazonenses — COIAB, ATIX e Foirn — já se manifestou publicamente contra a tese em 2024 e 2025.

Nas coberturas rastreadas, nenhum dos nove candidatos majoritários AM se manifestou nominalmente sobre a tese do Marco Temporal na campanha de 2026. O Relatório Violência 2024 do CIMI — primeiro ano sob a nova lei — registrou o Amazonas em primeiro lugar nacional em suicídios indígenas (75 casos) e em mortalidade infantil indígena de 0 a 4 anos (274 óbitos). O Relatório Violência 2025 foi lançado pelo CIMI em Brasília em 13/08/2026 — mesmo dia desta publicação — e novamente nenhuma das nove candidaturas comentou.

2 · Yanomami · rota logística de garimpo em quatro municípios do AM

A Portaria GM/MS nº 28/2023 declarou emergência em saúde pública de importância nacional no território Yanomami. O Decreto 11.384/2023, do mesmo dia, instituiu o Comitê de Coordenação Nacional para a resposta. O Ministério da Saúde contabilizou 29 óbitos de crianças yanomami menores de cinco anos por desnutrição em 2023 — 7,7% do total nacional de mortalidade infantil por essa causa, embora os Yanomami respondam por cerca de 0,013% da população brasileira. Total de óbitos yanomami em 2023: 428, segundo o balanço oficial do MS.

Documentação do CIMI, ISA e Ministério Público Federal aponta rotas logísticas de abastecimento do garimpo ilegal atravessando Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro, São Gabriel da Cachoeira e Presidente Figueiredo — quatro municípios do próprio Amazonas. Nenhum dos nove candidatos majoritários AM propôs, nas coberturas rastreadas, política estadual de apoio às operações de desintrusão, política estadual complementar de saúde indígena ou ação estadual sobre a rota logística amazonense. José Evandro de Oliveira (PSTU · Senado), operário terceirizado da Petrobras em Urucu — em rota geográfica próxima aos municípios da rota do garimpo — silencia da mesma forma que os demais oito.

3 · Grilagem no sul do Amazonas · quatro municípios no arco do desmatamento

Apuí, Lábrea, Novo Aripuanã e Humaitá concentram o arco do desmatamento amazonense. O PRODES/INPE 2024 registrou 6.288 km² para toda a Amazônia Legal, e o dado consolidado dos anos recentes coloca Lábrea em primeiro lugar no ranking amazonense de desmatamento e Apuí em segundo — segundo relatórios anuais do PRODES e o monitoramento independente SAD/Imazon. O Relatório Conflitos no Campo Brasil 2024 da CPT contabilizou 132 conflitos no campo no Amazonas no último exercício, com 119 conflitos por terra afetando 24.518 famílias e 250 expulsões — o terceiro maior número da região Norte, atrás apenas de Pará e Rondônia.

Roberto Cidade (União Brasil) inaugurou asfalto em Manicoré em julho de 2026 sem mencionar grilagem, CAR fraudulento, ITEAM ou o passivo fundiário do Madeira. Maria do Carmo Seffair (PL) percorreu justamente Apuí, Humaitá e Novo Aripuanã em pauta de setor primário sem citar regularização fundiária estadual, INCRA-AM ou grilagem — o discurso foi de "revolução agropecuária". David Almeida (Avante), Omar Aziz (PSD), Gilberto Vasconcelos (PSTU) e os quatro candidatos ao Senado mantêm silêncio total sobre a grilagem no sul do AM. Nenhum questionou a taxa concreta de fraude nos CARs municipais publicada pelo Imazon e pelo IPAM em relatórios de 2024 e 2025.

4 · Foz do Amazonas · Bloco FZA-M-59 licenciado sem pauta amazonense

Em 20/10/2025, o Ibama emitiu a Licença de Operação nº 1.684/2025 para a perfuração do poço Morpho pela Petrobras, no Bloco FZA-M-59 da Bacia da Foz do Amazonas — 500 km da foz e 175 km da costa do Amapá, campanha exploratória de cerca de cinco meses. O Plano Estratégico 2025-2029 da Petrobras prevê US$ 3 bilhões para toda a Margem Equatorial (15 poços, dos quais 8 na Foz do Amazonas) — o valor de US$ 20 bilhões que circulou na imprensa é projeção agregada de longo prazo, sem documento oficial correspondente. Blocos adjacentes foram ampliados em 2026.

A área direta de influência oficial do FZA-M-59, segundo o EIA/RIMA aceito pelo Ibama, cobre municípios de Amapá e Pará — nenhum município do Amazonas figura na listagem oficial, embora a bacia hidrográfica seja compartilhada. Ainda assim: nenhum dos nove candidatos majoritários AM se manifestou publicamente sobre licenciamento, royalties de partilha, riscos socioambientais de deriva de óleo pela Corrente Norte do Brasil ou repartição de compensações estaduais em coberturas rastreadas. A ausência é editorialmente eloquente no caso de José Evandro de Oliveira (PSTU · Senado), operário terceirizado da própria Petrobras em Urucu, que silencia sobre o principal projeto exploratório da estatal na região amazônica.

5 · ATER estadual · IDAM cobre 62 municípios sem plano detalhado na campanha

O Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas (IDAM) opera com cerca de 700 servidores e colaboradores distribuídos em 75 unidades locais nos 62 municípios do Amazonas, segundo release institucional da Casa Civil pelos 29 anos do órgão. Em 2026 o Governo do Estado disponibilizou R$ 75 milhões em crédito rural via AFEAM operado com apoio do IDAM. A Lei Orçamentária Anual 2026 do AM totaliza R$ 38 bilhões — a dotação analítica específica do IDAM não aparece nos releases de destaque, condicionando o eleitor produtor rural a consultar o volume analítico completo na ALEAM.

Omar Aziz (PSD) foi o único a defender publicamente reforço da ATER e do IDAM em pauta rastreável, em agenda de 07/08/2026 em Itapiranga, Silves, São Sebastião do Uatumã e Urucará. Sem quantificar meta de servidores, meta de cobertura de propriedades atendidas ou dotação orçamentária proposta. Maria do Carmo Seffair (PL) menciona genericamente "reestruturar o IDAM" sem números. Roberto Cidade, David Almeida, Gilberto Vasconcelos e os quatro senadores: silêncio operacional sobre servidores, cobertura ou orçamento do IDAM. A referência comparável está na EMATER-PA e na SEAGRI-RO, cujos dados de cobertura por propriedade atendida são publicados nos portais estaduais de transparência.

6 · Cooperativas extrativistas · economia real fora da plataforma

As cadeias extrativistas do pirarucu manejado, borracha, juta/malva, piaçava, açaí, castanha-do-brasil, cupuaçu e andiroba sustentam parte relevante da economia produtiva do interior amazonense. Em 2026 o Governo do AM, via ADS, lançou R$ 7 milhões em editais de subvenção econômica para quatro cadeias em 28 municípios: pirarucu manejado (R$ 1,00/kg), borracha (R$ 2,00/kg), juta e malva (R$ 0,60/kg) e piaçava (R$ 0,50/kg). Açaí, castanha e cupuaçu ficaram fora do edital estadual e dependem de programas federais paralelos como o Coopera+Amazônia (MDIC/BNDES/Sebrae) e o Amazônia Viva (R$ 96,6 milhões).

Do total de nove candidatos majoritários AM rastreados, apenas Roberto Cidade possui ação executiva concreta (os editais ADS 2026) porque é o governador em exercício. Os demais oito não detalharam, nas coberturas rastreadas, plano operacional para PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), PNAE (alimentação escolar), PGPM-Bio (garantia de preço mínimo para sociobiodiversidade) ou logística fluvial dedicada a cooperativas — instrumentos federais que dependem de articulação estadual permanente. Nenhum apresentou compromisso quantificado com contrapartida estadual ao Amazônia Viva ou ao Coopera+Amazônia. A economia real que sustenta parte do interior é mencionada em várias plataformas — não é operada em nenhuma.

7 · Relatórios anuais de violência no campo · anos consecutivos sem contraditório

O CIMI publica desde 1996 o relatório "Violência contra os Povos Indígenas do Brasil". A CPT publica desde 1985 o relatório "Conflitos no Campo Brasil". O AM aparece consistentemente entre os três estados com maior número de ocorrências em ambos os documentos. O Relatório CPT 2024 contabilizou 132 conflitos no AM. O Relatório CIMI 2024 colocou o AM em primeiro nacional em suicídios indígenas (75) e mortalidade infantil indígena 0-4 anos (274 óbitos). O Relatório CIMI 2025 foi lançado em 13/08/2026.

Nenhum dos nove candidatos majoritários AM comentou publicamente, nos veículos rastreados, os relatórios CIMI de 2023, 2024 ou 2025, nem os relatórios CPT do mesmo período. Nenhum questionou os dados. Nenhum propôs política estadual de resposta. Não houve manifestação sobre a coincidência entre o lançamento do relatório CIMI 2025 (13/08/2026) e a semana de convenções partidárias. A ausência de contraditório oficial permite que o dado circule sem interlocutor institucional amazonense — cabendo ao produtor rural, ao morador do interior, à comunidade indígena e à cooperativa extrativista concluir sozinhos o que a plataforma pública deixou de sinalizar.

A ausência é mensagem

Sete pautas que atravessam a fronteira produtiva do Amazonas foram deixadas de fora das convenções, das plataformas oficiais e das entrevistas rastreáveis dos nove candidatos majoritários deste ciclo — cinco ao Governo, quatro ao Senado. Do posseiro que aguarda titulação no INCRA há décadas ao professor da escola rural de Novo Aripuanã; da comunidade Yanomami de Barcelos ao ribeirinho do Alto Solimões; do castanheiro de Boca do Acre ao pescador manejador de pirarucu do Médio Juruá — nenhum desses eleitores encontrou proposta operacional na disputa até 13/08/2026.

O Agrovia · Política publicará atualizações semanais dessa cobertura até 4 de outubro. Se algum candidato romper qualquer dos sete silêncios com proposta quantificada — meta, dotação, cronograma, marco legal — registraremos aqui, nominalmente e com link para a fonte primária. Se o silêncio permanecer até outubro, também será registrado — porque a ausência, no jornalismo denominatário, tem o mesmo peso factual do que a manifestação.

Como isso afeta você

Se você produz, arrenda, extrativa ou disputa terra no Amazonas, sete perguntas devem organizar sua leitura das convenções até outubro: (i) o candidato se manifestou nominalmente sobre a tese do Marco Temporal julgada no STF? (ii) tem proposta estadual sobre a rota logística do garimpo em Barcelos/Santa Isabel/São Gabriel/Presidente Figueiredo? (iii) fala em grilagem no arco Apuí-Lábrea-Novo Aripuanã-Humaitá com número concreto? (iv) posiciona-se sobre licenciamento e compensações da Foz do Amazonas? (v) apresenta meta quantificada de servidores, cobertura e orçamento para o IDAM? (vi) tem plano operacional para PAA/PNAE/PGPM-Bio e logística fluvial de cooperativas? (vii) comentou o Relatório CIMI 2025 (lançado 13/08/2026) ou o Relatório CPT 2024? O que os nove silenciam é tão informativo quanto o que dizem.

Fontes primárias
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