Em 27 de agosto de 2026, na sede da B3 em São Paulo, 267 mil hectares da Floresta Nacional de Balata-Tufari, no sul do Amazonas, foram concedidos a duas empresas. Nenhuma tem sede no estado.
O contrato vale R$ 2 bilhões ao longo de 35 anos. Do total, cerca de R$ 2 milhões por ano retornam à região como compensação socioambiental — e boa parte desse retorno depende da prefeitura de Canutama, que atravessa o pior momento institucional da última década.
| Item | Número |
|---|---|
| Área concedida | 267 mil hectares (24,7% da Flona) |
| Prazo dos contratos | 35 anos |
| Investimento total previsto | R$ 2 bilhões (R$ 300 mi em infraestrutura + R$ 1,78 bi em operação) |
| Retorno anual à região | R$ 2 milhões em compensações socioambientais |
| Fatia obrigatória indígena | 20% (~R$ 400 mil/ano) — Juma e Mura |
| Fatia via prefeitura de Canutama | 80% (~R$ 1,6 milhão/ano) |
| Produção anual estimada | ~134 mil m³ de madeira |
| Empregos previstos | 577 diretos + 1.154 indiretos |
Quem levou o leilão
As três Unidades de Manejo Florestal — pedaços da floresta liberados para retirada controlada de madeira — foram divididas entre a B2 Comércio e Exportação (duas) e a Madeirantes Serviços, Indústria e Comércio de Madeira (uma). Nenhuma tem sede no Amazonas.
A Madeirantes chama atenção pelo porte: registrada em Nova Bandeirantes (MT), aberta em abril de 2021 e com capital social de R$ 120 mil, vai administrar um contrato de cerca de um terço dos R$ 2 bilhões previstos.
O padrão se repete. Em maio de 2025, o leilão da Flona do Jatuarana, em Apuí, foi arrematado por três empresas de Pará e Mato Grosso. Nos dois pregões seguidos, nenhuma vencedora era amazonense.
O caminho do dinheiro que retorna
O edital do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), órgão federal que administra as concessões de floresta pública, obriga cada empresa a destinar uma parcela anual da receita a projetos das comunidades do entorno — as compensações socioambientais, estimadas em cerca de R$ 2 milhões por ano.
Vinte por cento (~R$ 400 mil/ano) vão obrigatoriamente aos povos Juma e Mura, conforme compromisso firmado em junho de 2025 na Consulta Livre, Prévia e Informada — instrumento da Convenção 169 da OIT que obriga o governo a ouvir os povos indígenas antes de decisões que os afetem.
Os 80% restantes (~R$ 1,6 milhão/ano) passam pelo circuito institucional de Canutama. É a prefeitura, junto ao Conselho Municipal, quem define onde o dinheiro será aplicado. E é aí que o cenário complica.
A prefeitura em colapso
Em 3 de junho de 2026 — dois meses e meio antes do leilão — o Tribunal de Contas do Amazonas publicou o Parecer Prévio nº 27/2026 e o Acórdão nº 27/2026, recomendando a rejeição das contas de 2023 e julgando irregular a prestação do prefeito José Roberto Torres de Pontes, o Zé Roberto (União Brasil, reeleito em 2024).
O prefeito foi multado em R$ 55 mil e o processo foi remetido ao Ministério Público do Amazonas para investigação por improbidade administrativa — má gestão do dinheiro público que, confirmada, pode levar a processo criminal, ressarcimento e perda dos direitos políticos.
É o último ponto que liga o caso ao leilão: as audiências públicas, previstas em lei, são o instrumento pelo qual a comunidade opina sobre onde o dinheiro público é aplicado. É exatamente por elas que o edital do SFB pressupõe que os R$ 1,6 milhão anuais em compensações seriam validados junto aos moradores. O mecanismo previsto não existe, na prática, na rotina municipal.
O que ainda pode mudar
O leilão fechou o preço. A operação efetiva ainda depende de uma sequência de etapas — e é nelas que ainda cabe pressão institucional, técnica e social.
A Agrovia acompanhará essas cinco frentes como parte da residência editorial em Canutama.
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